sábado, 2 de fevereiro de 2008

É Carnaval...



Pois é galera, o carnaval está na área...
Aproveito a deixa para dissertar a respeito das origens do carnaval de Porto Alegre.
Boa leitura, boa festa, cuidado sempre!
Não esqueça: pra poder curtir todas as noites, esqueça o carro, pegue carona somente com alguém de cara limpa ou siga de táxi!
Carnaval em Porto Alegre
Origens
Segundo o livro “ Fragmentos Históricos do Carnaval de Porto Alegre”, o carnaval (do povão) de Porto Alegre é o carnaval que surgiu nos bairros pobres como o Areal da Baronesa e a Colônia Africana. O primeiro assim chamado por ser na beira do rio (uma praia, posteriormente aterrada e onde hoje é a Praça Cônego Marcelino) e que tem esse nome por antigamente pertencer a Baronesa (esposa do Barão de Gravataí), e o segundo pelo número de negros que ali fixaram residência. Neste local, os escravos libertos passaram a morar após a abolição da escravatura.
O Areal era um reduto totalmente carnavalesco, onde a partir dos anos 30, já existiam notícias em jornais de grupos com nomes de “Ases do Samba”, “Nós os Comandos”, “Seresteiros do Luar”, “Nós os Democratas”, “Viemos da Madureira”, “Tô com a Vela”, “Os Caetés” e mais recentemente, os Imperadores do Samba. Todos tiveram origem no Areal. Foi onde surgiu o Rei Negro (Seu Lelé), primeiro Rei Momo Negro da cidade, e os primeiros coretos populares da cidade.
O outro bairro de negras origens do município, a chamada “Colônia Africana”, aos poucos foi perdendo sua negritude pela exploração imobiliária, e hoje tem nomes “pomposos” como bairro Rio Branco, Mont’Serrat e adjacências. Esse era também o local onde negros libertos foram morar. Da Colônia surgiram grupos como “Aí-vem-a-Marinha”, “Prediletos”, “Embaixadores”, “Namorados da Lua”, etc... A Colônia Africana era o bairro do famoso Salão Modelo ( também chamado de Ruy), na esquina entre as ruas Casemiro de Abreu e Esperança.
O carnaval de Porto Alegre é originário do Entrudo, que passou por épocas de liberação e proibição. Por volta do ano de 1870, o Entrudo caiu em desuso pelo surgimento da Sociedades (Esmeralda e Venezianos), que mudaram e dominaram o carnaval até mais ou menos 1900. O Entrudo consistia em jogar limão-de-cheiro (uma bola de cera do tamanho de um limão, cheia de água perfumada), uns nos outros. É claro que a coisa descambava e havia casos em que se atiravam ovos e farinha nas “vítimas”. Daí deve-se o porquê de suas proibições.
Uma das características do Carnaval de Porto Alegre foram os Blocos Humorísticos, como o “Tô com a Vela”, “Canela de Zebu”, “Te arremanga e Vem”, “Saímos sem Querer”, “Tira o dedo do Pudim” e outros que marcaram época, mas foram perdendo terreno para o carnaval “estilo Rio de Janeiro” das Escolas de Samba. Os Blocos Humorísticos foram eliminados pela Prefeitura no ano de 1970. A razão principal de sua eliminação, na verdade, era sua crítica aguda, principalmente dirigida aos políticos.
Outra característica do nosso carnaval, hoje desaparecida, foram as Bandas, que tiveram seu apogeu entre as décadas de 70 e 80. Algumas foram a “DK”, “Saldanha Marinho”, “Medianeira”, “Por causa de Que”, “Areal da Baronesa”, “JB”, “Filhos da Candinha”, “Comigo Ninguém Pode”, “IAPI”, etc... Há quem diga que as Bandas não teriam vingado por serem uma idéia importada, que não era original do nosso meio. Seja como for, algumas desapareceram e outras se transformaram em Escolas de Samba.
Uma característica que provavelmente é exclusiva do carnaval de Porto Alegre, são as “Muambas”, ensaios dos blocos e escolas feitos como uma prévia para o desfile oficial. Antigamente a Muamba também era uma forma de arrecadar dinheiro para o desfile oficial e ocorria em diversos pontos da cidade. Geralmente, o pavilhão da escola era carregado aberto e as pessoas jogavam moedas ali. Em 1977, foram oficializadas pela Prefeitura (pelo prefeito Guilherme Socias Villlela), perdendo assim sua espontaneidade.
As chamadas “Tribos Carnavalescas” também eram uma exclusividade do carnaval da Porto Alegre. As tribos tiveram grande destaque entre 1950 e 1960. Eram tantas quanto as escolas de samba, dentre elas: “Os Arachaneses”, “Os Aymorés”, “Os Bororós”, “Os Caetés”, “Os Charruas”, “Os Navajos”, “Os Potiguares”, “Os Tapajós”, “Os Tapuias”, “Os Tupinambás”, “Os Xavantes”... Mas, com a crescente influência do carnaval espetáculo realizado no Rio e sua conseqüente adoção pelos foliões, a opção destes pelas Escolas de Samba em detrimento das Tribos foi aumentando, e essas tribos foram desaparecendo ao longo do tempo, restando hoje apenas duas: “Os Comanches” e “Os Guaianazes”.
Geralmente, os Grupos Carnavalescos, até os anos 50 e 60, só admitiam homens em seu meio. Quando as mulheres desfilavam (e geralmente eram parentes dos integrantes ou vigiadas pela mãe ou irmã mais velha) , eram fantasiadas com o equivalente feminino ou com os mesmos trajes dos homens. Os primeiros grupos femininos lembrados pelo pessoal da velha guarda foram: “As Fazendeiras”, “As Japonesas”, “As Fuzileiras”... Houve ainda “As Iracemas” - saídas dos Caetés - e “As Heroínas da Floresta”, do Clube Floresta Aurora. Alguns destes grupos femininos desfilavam em coretos oficiais, como é o caso das Iracemas, que chegaram em alguns coretos a conquistar o 3º lugar, outras faziam atividades só internamente.
Dentre as várias Sociedades que existiram e que hoje permeiam a lembrança de quem viveu esta época de ouro, posso citar duas grandes Sociedades, que surgiram praticamente na mesma época e cuja rivalidade teria marcado também uma outra grande rivalidade aqui do Sul: o clássico Gre-Nal. Mas, esta grande rivalidade eu falo em uma outra oportunidade, hehehe.
As Sociedade foram: S.C. VEZENIANOS, fundada em 1873, tinha como cores características o Vermelho e o Branco. Uma das grandes sociedades que deram início aos grandes prescritos carnavalescos de Porto Alegre. Os Venezianos tinham como símbolo o Leão de Veneza e duraram de 1873 até meados de 1912. Sua sede era na Venezianos, hoje Joaquim Nabuco, mesmo local onde nasceria, anos mais tarde, os Imperadores do Samba. Os Venezianos se denominavam como a Sociedade do Povo, em contraposição á Esmeralda, que seria a elite. Em 1907, os Venezianos desfilaram com mais de 100 cavaleiros e, houve uma vez em que se contrataram todas viaturas da cidade ( charretes, coches, etc...), deixando, literalmente, a rival na mão.
A outra grande sociedade foi a S.C. ESMERALDA, também fundada em 1873 e que tinha como cores características o Verde e o Ouro. Segundo relatos, a Sociedade Esmeralda era de 1874, podendo ser de 1873, ano em que realizou seu primeiro desfile. No ano de 1888, realizou desfile com muita dificuldade, já sem apoio oficial e popular. Durou até 1940, fazendo corsos e bailes. A Esmeralda chegou a fazer eventos no Theatro São Pedro, em 1923, e em 1927 fazia só bailes internos e alguns corsos. Seu lema era: “Carnaval fino, chic e educado”, gozado pelas concorrentes como “Carnaval feio, grosso e mal-educado”.
Ufa!
É isso galera...Voltar no passado é muito bom e vale lembrar também que na época, a palavra de ordem era DIVERSÃO, ao contrário do que se entende hoje por carnaval, cinco dias de folia onde tudo parece estar liberado, onde ninguém é de ninguém e o que vale é ser feliz e nada mais...Será mesmo?
Não esqueça que, depois da última noite de festa, tudo, absolutamente tudo volta ao normal...
Portanto, brinque, mas seja consciente!
Até a próxima!

3 comentários:

Régis disse...

To abismado aki com esta descoberta.... Quer dizer q o metro quadrado mais caro da cidade já foi área de descarte dos negros libertos e alforriados?! Puta ironia meu irmão. Hoje em dia mais de dois negros circulando naquele bairro já são suspeitos msm sem fazer nada. Eu nasci no bairro Mont' Serrat e lendo isto, tudo fez sentido. Havia muitos negros naquele bairro e era temido tanto pela polícia quanto pelos times de futebol q formavam lá. Foi ótimo ter nascido lá pois o convívio me "vacinou" contra este preconceito racial velado e negado por todos, mas muito presente até hoje.

Peterson Rangel disse...

valeu, obrigado!!!!
só gostaria de agradecer, mas, teu perfil não existe!!!
Abração!

Valmir disse...

Olá Peterson, gostei do teu blog, que só hoje descobri, graças a página do Arlan. Gostei e estou linkando em meu blog e fiz até um comentário no dia de hoje.
Só faço uma crítica aos blogs dos três meus primos-irmãos, o Arlan, a Denise e você. Por favor, mantenham as páginas atualizadas. Há tanto para se escrever, publicar.
O que se passa em Gravataí, em sua mais diversas áreas. Contem-nos suas experiências, um pouco de memória. As festas, as baladas.
Mãos a obra, galera! Precisamos de seus escritos.
Um abraço do primo
Valmir